Corpo vazio


Há muito tempo olho no espelho e tudo que vejo não é nada, não tem vida nem mesmo uma rotina chata para reclamar, a apenas um corpo como tantos outros que dormem, comem, trabalham, saem mas não se divertem.
Tudo o que vejo pelo reflexo, quase inexistente, da lagoa já poluída, é um ser sem vida, que acorda todos os dias com o mesmo propósito imundo e sem graça, que se enche de planos todos os fins de tarde, planeja várias metas antes de dormir mas que acorda sem nenhuma iniciativa.
Que todos os dias tropeça caindo em pessoas negativas que não acreditam que possa haver mudanças, que acabam desencorajando, frustrando e contaminando os pequenos e vastos sonhos de alguém, pequeno demais para se defender, de alguém que só conhece pessoas sem solidariedade, sem humanidade que não tem ninguém para se apoiar e seguir.

Kelly's Pub


- Boa noite! O Senhor deseja algo?
- Desejo meus anos de volta, com todos os aprendizados que recebi nesses últimos 47 anos e uma dose do seu melhor ouvido pela próxima noite. Meu jovem posso parecer um velho acabado, debruçado sobre seu balcão, arranhado e grudento, mas já fui como você e todos sentados aqui, sem muita experiência, cheio de vontade e com um desejo insaciável por aventuras.
Bem, em uma noite, deixe me pensar, à mais ou menos uns 28 anos atrás, eu estava na esquina desse bar, bem, como posso falar sem parecer imbecil? Conhecendo uma jovem assim por se dizer, mal poderia saber que, a partir daquele momento, me tornaria o que sou hoje, procurado não apenas pela polícia, por um dos mais astutos assaltos com reféns, éramos cinco, naquela tarde ensolarada de terça-feira, entramos as 15:37, haviam poucas pessoas trabalhando naquele dia, sete ao total e clientes eram onze, havia uma mãe com uma criança de colo, lembro daquele menino de olhos castanhos escuros, que não parava de chorar e por isso liberamos, tanto ele como sua mãe que fedia a vômito fresco poucos minutos depois, você sabe o que fazem com assassinos de crianças em presídios? Bom, não queira saber.
Como eu dizia, ficaram dezesseis reféns ainda, pedimos para que enchessem as malas com rapidez, não queríamos demorar muito lá dentro para não haver ainda mais complicações do que já havia ocorrido, aquele banco cheio de lustres e desenhos de anjos já estava cercado de policiais, e isso já passava das 15:51, a cada minuto que passava, ficávamos ainda mais apreensivos, quando um de meus parceiros disse que deveríamos negociar com o Chefe da operação Carlos, que me parecia um bom homem, apesar de estar querendo me prender.
- Negociações nunca dão certo.
- Não interrompa! Carlos fez muitas propostas, mas todas elas nos deixava de mãos atadas e sem nenhum refém, foi quando olhei para a linda moça que havia conhecido na noite passada e cogitei desistir dos meus parceiros de anos, e comecei pensar apenas em mim e nela, eu sei meu jovem parece um tanto quanto egoísta, não é mesmo? Ainda mais se pararmos e pensar que não fazia nem 24H que nos conhecíamos, chamei para longe e conversamos por quase uma hora, planejamos o que faríamos e chegamos a uma única solução.
Ela foi chamar o restante do grupo e ficou enrolando enquanto isso liguei para o Chefe Carlos e fiz de conta que era um refém e passei informações de como sua equipe deveria proceder, expliquei onde “nós reféns” estávamos, e quantos eram os “assaltantes”, por onde era melhor sua entrada e em que momento, prometi que na hora chamaria a atenção de meus cúmplices e criaria uma distração para a equipe de Carlos ser bem sucedida.
Feito isso, voltei para perto da moça e acertamos os últimos detalhes, isso era 16:50, fazendo parte do nosso plano, ordenei que eles fossem para perto dos reféns, como havia combinado com Carlos alguns minutos antes, peguei a moça pela mão e falei que iríamos estudar uma rota de fuga para todos, foi quando começamos nossa própria fuga.
- Abandonasse seus amigos por uma única mulher, mas...
- Meu jovem, tenha calma. Subimos para o terceiro piso, lá tinha uma escada externa em caso de incêndio, esperamos pelo lado de dentro da janela, até escutar o estrondo da porta de baixo romper o silêncio no prédio, foi quando eu sai primeiro, e ela foi logo atrás de mim, tão rápido quanto conseguia, mal consegui ar suficiente, era como se meu pulmão tivesse parado, num estante estávamos na calçada, com três malas, e dentro de cada uma delas havia mais ou menos R$700 mil, e logo estávamos andando na rua como se fossemos curiosos pelo acontecimento, apenas turistas enxeridos. Meus amigos, assim como você falou, foram pegos, dois deles acabaram morrendo, um por um policial e outro não encarou muito bem o fato de ser preso, e antes mesmo que alguém pudesse ter feito algo puxou o gatilho se despedindo desse mundo, o outro foi preso, julgado e condenado, deixando bem claro que tudo o que aconteceu naquela tarde foi a meu mando, assim que soube disso sumi, abandonei a moça e o bebê que ela esperava.
A propósito, o nome da moça era Kelly!
- O que?!!!

- Isso, Kelly, soube que ela usou o dinheiro daquele dia para comprar esse bar, criar seu filho, ter uma vida tranquila, soube também que seu filho tem os olhos do seu pai, tão claros quanto água cristalina, meu jovem já reparasse que seus olhos brilham tanto quanto os meus em noites mais estreladas!

Cuidando-lhe


Estive lhe olhando todo o tempo, lhe cuidando lhe protegendo estive olhando por você, passei noites esperando você chegar em casa dar noticias que tudo estava bem e em fim poder descaçar poder dormir em paz sabendo que você estava bem e que nada iria lhe machucar naquela noite, passei dias querendo saber se tudo estava acontecendo como deveria e se você estaria fazendo tudo certo se você estaria bem ou pelo menos sem machucados novos.
Passei horas que mais pareciam fim de vidas querendo ter noticias suas quando você saiu sem bater a porta ou mesmo quando nem teve a chance de me avisar que sairia, passei horas olhando você jogar palavras ao vento, e passei horas olhando suas fotos. Eu passei horas chorando pedindo para que você ficasse bem, para que você estivesse bem, eu cheguei a fazer coisas feias para tentar fazer com que você saísse de mim um pouco. Eu passei mas tempo tentando fazer você bem, fazer você feliz do que eu passei estudando, alias quando esta estudando me preocupava contigo, e eu pensava será que já se lavou, se já comeu, se não bebeu. Ficava atordoada quando não sabia nada mas não saber nada ainda  não era pior do que não saber por onde estava.
Eu passei noite lhe esperando sem mesmo saber se você voltaria, passei noite esperando sem saber se você conseguiria achar o caminho de volta, passei noite lhe esperando sem mesmo você saber, sem mesmo você saber que eu estaria ali só para saber se você chegaria e se chegaria feliz. Confesso que apesar de ficar bem, ficar tranquilo em saber que chegasse bem eu ficava com um tanto de ciúmes por não ter feito seus sorrisos ou mesmo gargalhadas na sua noite.

Eu passei momentos de agonia por você, tive medo por você, eu senti uma saudade que eu não sabia que poderia sentir, eu quis o teu abraço mas que eu já quis qualquer outro.

Noite sem fim


Não sei bem ao certo onde estou, sei que não quero sair do meio dessa multidão, observo, conforme as luzes se alternam nesse acende e apaga, todos pulam, dançam e gritam um refrão que não consigo compreender mas sinto em cada músculo, em cada centímetro do meu corpo, tomando conta de mim de um jeito sem igual, transformando meu balançar em pulos e gritos tão altos, descontrolado, consigo fazer com que todos ao redor notem minha presença imunda.
Aqueles ao meu redor bebem, berram, pulam, fumam, beijam, abraçam e conversam, vivem. Os que estão mais próximos a mim esbarram e acabam por me empurrar com tanta força para todos os lados posso sentir mãos, pés, braços, cabeças e acho que até lábios, dentes caindo ao chão.
Há tanta fumaça ao meu redor, que me faz pensar que poderia ser mais uma noite gélida cheia de nevoa mais todos aqui são pessoas alegres segurando um copo cheio de um bom rum.

Não, eu não quero que esta sensação se vá, não quero ter que voltar para aquelas esquinas frias e becos escuros que me assombram, que me enlouquecem com tantas duvidam e angustias, não retornarei para minha realidade quero poder ficar aqui. Este lugar é tão parecido com os que eu criava e imaginava antes de dormi quando era criança.

Querida...


Ao fundo havia uma música ruim, a iluminação era fraca e em tom rosado se não me engano, a letra falava sobre um furão que queria voar ou voltar, me desculpe mas eu bebi um pouco à mais do que deveria e talvez as frases não façam tanto sentido para você quando fazem pra mim.
Eu sei que já e madrugada e estou falando com a secretaria eletrônica, e que você provavelmente está em Chicago, aproveitando o que seria a nossa lua de mel, olhando a vista e esperando aquele cara, porém, quero que ouça mesmo assim, eu ainda estou aqui no nosso balcão, comendo aquele amendoim com gosto horrível que você gostava só porque era verde, estou fazendo o que você dizia experimentando o menu de entradas, junto com a carta de vinhos, eu não estou pedindo para você voltar, só estou querendo falar algumas coisas que fui covarde demais naquela noite em nossa varanda que agora é da Eugenia.
Você foi e será uma grande parte de mim, te carrego no peito todos os dias, só quero que saiba que, muitas vezes, me impedir de ser eu mesmo para ser quem você queria que eu fosse e em outras ignorei totalmente que para amar alguém temos que nos amar primeiro.

Todos aqueles amanheceres ao seu lado me deram maturidade para vir ao balcão e fazer o mesmo pedido dia após dia, mas isso já não basta, e no começo do fim desejei tanto o seu mal, mas não me leve a mal, entenda que foi difícil e que agora já posso caminhar só e deixar que você anda junto a outro alguém.

Lembranças matutinas


Hoje acordei com saudade das tuas palavras, das tuas manias, das tuas teimosias e até das tuas broncas sem motivos, acordei com saudade do teu café da tua companhia de seus gritos pela manhã, do seu amor. Levantei com saudade de quando ia te acordar bem cedinho pra dizer tchau antes da aula, acordei com saudade de quando íamos por ai para encontrar seus lugares preferidos de quando víamos a cidade do alto e nada mas importava a não ser seus braços envolvidos em um abraço.
Hoje eu acordei com saudade de quando tu brigava comigo por estar andando de meias brancas lá fora, de quando o café da tarde era servido as 4:00 da tarde e todos se sentavam juntos, saudade de tu falar que sou bonita quando estava coberta de sujeira, acordei até mesmo com saudade de quando você não estava por perto mas ainda assim estava lá, acordei com saudade e vou passar o dia, a noite e a vida inteira com esta saudade, todos os dias ela me transborda e todos os dias vou sentindo mais e mais.


Baile compassivo


Um pra lá e um pra cá, repetidas vezes para fazer uma reverencia, sorriso com piscadinha, coração a mil, sem deixar transparecer nervosismo, meia lua, vários olhares cheios de julgamentos e incertezas, num deslumbre pelo salão mais admiradores num embalo sem volta, viaja pelo ar, podendo sentir cada parte do seu corpo como numa engrenagem completa, fazendo de sua alma um gigantesco palco.
Num estrondo delicado esta ao chão, sem ser um tombo apenas mas uma parte de uma coreografia ensaiada milhares de vezes até ao exausto diário, nesse momento visualiza olhos reconfortantes em meio a tantas críticas enaltecendo ainda mais seu brilho e glamour, pés leves e firmes deslizam fazendo até os quadris mais duros quererem se requebrar, com medo, respira fundo e solta com destreza, mostrando que incertezas do passado já passaram e que não abalam mas suas órbitas.

Em seus movimentos enaltece aplausos, sorrisos e confiança, que jamais pensou em ter, sem se esquecer que ali mesmo já teria sofrido pelas mesmas agonias que agora, trocando lágrimas e soluços de tristeza enchem os pulmões e em cada suspiro abre mais o sorriso girando sem se perder, tendo se perdido por completo para se tornar ainda mais si mesma.