Devaneio de guerrilha


Do rádio ecoava umas músicas estranhas do meus netos, mas dentro de mim liberava uma velha sensação, que conhecia tão bem quanto meu próprio corpo, dentro de mim implodia uma chama de glória. Ao contar e relembrar tão vividamente todas aquelas histórias, tão chatas para os meus netos, elas ficaram tão nítidas que poderia jurar que estavam acontecendo neste instante.
No fundo eu sei que é apenas, mais um de meus devaneios de rotina, pois todas essas conquistas sangrentas são tão reais como esse meu corpo velho e mutilado sem utilidade, ao menos posso me vangloriar com todos esses momentos do passado, me orgulhar de todos os companheiros que tive o privilégio de guerrear e de todos os que não foram tão bons assim, mas acima disso tudo sempre fui honrado em minhas atitudes.
De todas as missões impostas a mim durante todos os meus anos de glória, apenas não realizei uma, não que não conseguiria cumprir, mas por ter esquecido uma regra básica. Este foi meu adeus a essa vida conturbada, cheia de mortes e feridas, eu não poderia continuar machucando sem me machucar e eu não poderia arrastar comigo alguém.

Eu não poderia machucar alguém de olhos tom de mel, tão brilhantes como o sol, lábios que foram desejados por muitos homens antes de mim, seios fartos, uma bunda que me faz palpitar, me balançar querer algo que nunca imaginei ter, em todos os meus anos de guerra nunca estive tão realizado como naquela noite que fugimos, nunca estive tão realizado como estou agora jogado em volta de meus netos contando momentos de gloria, agora, sem importância.

Tenho saudade


É, é bem clichê mesmo, mas todos os clichês são sinceros e fáceis de entender. Eu sinto saudades, e tem dias que é tão forte que mal cabe dentro de mim, e é normalmente quando me agito sem motivo, dou chilique sem plateia e tomo banhos longos e quentes para sentir o mínimo de conforto ao final de um dia.
Eu gostaria de deixar para lá, e as vezes eu consigo, eu esqueço o motivo de estar como estou, mas acontece que um monte de coisas vão acontecendo, vou ficando triste, brava e tão estupida quanto um dia de chuva, acabo por me afastar e nem me dar ao trabalho de responder mensagens, simplesmente acabo sumindo, é difícil esquecer mas é bem mais lembrar.
E quando lembro, não consigo me acreditar que ainda dói tanto, que é tudo tão difícil, e que tudo o que eu queria era um abraço, um colo um chamego, e tem dias que são tão ruins quanto as noites mal dormidas que tudo me lembra você, mãe! Eu nunca me permitir falar tão seriamente, mas as vezes tudo se torna uma enorme confusão de ódio e revolta que a única coisa que tenho vontade é de desistir, de não continuar apenas deitar e chorar.
Essa não é a pior parte, porque, por mais difícil que parece eu já superei você ter ido tão cedo, o que se torna horrível é que aos poucos eu já não lembro o teu cheiro, mas me alivio sentindo o doce perfume que você sempre usou, que agora uso também, não recordar como era sua voz e já faz tanto tempo que mal consigo lembrar se ela era tão doce quanto em minha memória, se seu sorriso era grande ou pequeno, as pequenas coisas que aos poucos vão sumindo e eu não consigo prender dentro de mim, tem vezes que por mais que eu tente eu não consigo se quer lembrar do seu rosto, e é nessas horas que me desespero e meu coração se aperta porque eu a amo tanto, e mal consigo lembrar quem você era, e isso me dói de um jeito que não sei explicar, me incomoda e acabo por incomodar à todos.
E isso me toma de um jeito, que mal consigo olhar nos olhos de qualquer um sem me encher de lágrimas e por um breve momento, querer apenas chorar e ser um bebê novamente, e há tantas pessoas aqui por mim que já não há alguém que não saiba a dor que tenho em mim por não ter você.

Dia ruim


As vezes você acorda pela manhã e percebe que a caneca esta lascada, o pão não está tão assado, e as minutos estão voando, você sai atrasado e chega em cima do horário no trabalho, e dali em diante decide que seu dia será ruim, que não conseguirá entregar o resultado, que o almoço será queimado, e a tarde infinita, que ao sair do escritório passará voando até o horário de dormir, que mal terá tempo de passar um café, imagina tomar uma, tomar um banho relaxante, mas tudo o que você enxerga são momentos péssimos.
Mas esquece que se tivesse saído de casa no horário, poderia ter acertado o ônibus na saída do portão ou pegado o pedestre na esquina, deixe de olhar o mundo de uma forma tão padrão e pessimista, olhe que você acordou cheio de vontades para a sua noite e passará o dia planejando ela, veja que você não está nem na quarta mas já almeja a sexta para aquele jogo de poker após expediente ou o cinema no domingo.

Se seus planos não estão indo tão bem quanto você gostaria, não quer dizer que eles não darão certo, só quer dizer que você terá caminhos diferentes, só quer dizer que você esqueceu um ou dois despertadores ou ficou cantando demais no chuveiro. Se você se atrasou na saída se adiante na chegada, não é porque você não sabe onde quer chegar que você não precisa saber como ir, talvez você só precise pesar fora da caixa para saber onde chegar.

Meu desejo


Acordei antes mesmo do despertador tocar, fiquei bravo comigo mesmo por não conseguir dormir um pouco à mais, havia uma brisa fria porém boa, pela janela não passava brilho algum, como poderia passar se lá fora estava tão nublado quanto aqui dentro. Lutei tantas vezes antes de me despedir das cobertas que quando a chaleira elétrica apitou rompeu tantos silêncios dentro e fora de mim que pude realmente acordar, pude perceber que já era tarde para se lamentar pelos dias que haviam passado, pelos horas acordado, pelas pessoas que não conheci e pelas pessoas que deixei passar, tenho tanta pressa de chegar que, antes mesmo de sair, já passou, tenho pressa e não sei esperar quero tudo para já e nada para depois, já perdi a conta de quantas vezes que já magoei, mesmo antes de abrir a boca, nunca soube o momento certo de me desculpar, então me acostumei a me afastar, apenas olhar e torcer em silêncio que todos pudessem chegar em suas linhas de chegadas, não apenas vitoriosos, mas felizes.

Me acostumei tanto em ser o que sou, que hoje não ligo mais atrás, não mando mensagens e nem mesmo escrevo cartas, não espero que me procurem ou me esperem, tudo o que desejo é que possa chegar num final de tarde colocar minha melhor playlist e desfrutar todo o bem que já recebi.

Fotografia


Da onde eu vim as pessoas acreditam que toda vez que tiram uma fotografia sua alma fica presa à ela e esse é um dos motivos de quase nunca vermos uma fotografia com rostos.
Mas eu já cresci o bastante para saber que o que fica preso não é a alma e o coração, a mente e toda aquele êxtase da sensação do momento que você escutou aquele, sorria pra foto, diga xis, ou simplesmente quando reparou no flash no meio da escuridão.
É tão comum me pagar olhando pro passado e desejando aquele momento novamente, que lagrimas brotam do interior dos meus olhos escorrendo pelo meu rosto. Olhar para todas essas fotos me faz perceber que sinto falta de tantos que já se foram e não se faram mais presentes e que o único jeito bonito de homenageá-los é sorrir e ser feliz, é isso que meu coração fala mas é tão difícil sentir isso com tanta saudade e lacunas abertas em meu peito.
Eu poderia correr por vastos campos abertos, cobertos por grama e capim alto ou então pela areia meio molhada na beira do mar ou ainda cair com paraquedas, que a sensação de tristeza mais cedo ou mais tarde viria e cobriria a mim dos pés à cabeça, tão fácil quanto uma mãe acalma o filho recém-nascido.
Poderia ainda assim lutar contra vilões ao lado de heróis ou impedir que uma doença misteriosa acabasse atingindo milhares ou ainda poderia laçar um boi bravo sozinho, sendo tomado por tamanha adrenalina, mas ainda assim ela acabaria no momento que eu discasse um determinado número e a foto dela aparecesse eu cairia em prantos.

As fotografias tem esse poder sobre nós meros espectadores, tanto sentimento envolvido em apenas uma imagem, que só seria preciso um prólogo apenas para explicar a situação que levou aquele click naquele determinado momento.

Escasso ar


Por breves momentos prendo todo o ar que aguento dentro de meus pulmões, por mais tempo que consigo, naqueles poucos instantes, é como se nada importasse, como se nada pudesse me chatear, é como se eu ficasse fora do alcance de todos e de tudo, como se criasse um limbo entre eu e o resto do mundo.
É como se por um segundo e apenas por esse segundo eu pudesse sair e correr sem direção, como se o que eu penso ou faço não interferisse em nada nem ninguém, como se nesse segundo, pudesse gritar, tudo o que sinto, vejo e desejo, o mais alto que minhas cordas vocais conseguissem, sem que ninguém reclamasse ou desdenhasse, diminuindo o caos que presencio todos os dias.

Quando inflo meu peito sinto que o limbo que se cria entre mim e o mundo, impede tudo que me aflige, assusta e assombra, é quando sinto e escuto cada turbulência dentro de mim ficar cada vez mais fraca e frágil ficando inexistente.

Bagunça mental


E tudo isso está uma bagunça, tanto o chão pelo qual tenho que pisar, quanto os meus sonhos que me atormentam toda vez que deito para fugir de toda essa realidade que não posso mas suportar. As coisas estão bem difíceis e no fundo eu sei que elas não irão melhorar, era assim mesmo que ela me dizia e é assim que eu aprendi.
No fundo eu sei que toda essa minha intolerância com tudo e com todos, essa agonia que vem em forma de lágrimas que deixo aparecer em forma de grito, é o medo de não conseguir ser o que ela me ensinou, eu sei que ninguém me pediu para fazer tudo que estou fazendo e que ninguém pediria para fazer, nem para suportar tudo só.
A verdade é que eu não gosto de parecer frágil, não gosto de deixar transparecer meus medos e minhas canções de tristeza, e sei que não preciso lutar contra isso, mas eu sei que assim estou sendo o bebê arrogante, estúpido e o que ela sempre amou.
Eu sei que muitas vezes respondi de forma incorreta, nada compatível com a forma doce que ela tinha, eu teria chorado canções, sem se quer uma vez ela levantar para me chutar, as palavras dela sempre fizeram as situações errôneas apodrecerem em minha mente, até elas ficarem tão claras e delicadas como um beijo doce de boa noite.

Muitas vezes me pego lembrando a cena horrível daquela noite, aquela que ela se foi, foi dizendo coisas que não entendíamos, foi para um lugar longe e distante cada vez mais e agora é só saudade e bagunça que vagam na escuridão da minha mente cansada e esgotada.